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Direito de Família

O pai do meu filho é prestador de serviços. Eu posso pedir na Justiça que as empresas que o contratam depositem a pensão direto na minha conta?

O pai do meu filho é prestador de serviços e, com isso, não tem carteira assinada, não recebe salário e, por consequência, não tem folha de pagamento para descontar a pensão.

Muitas mães chegam ao escritório com essa dúvida: posso pedir na Justiça que as empresas que o contratam depositem o valor direto na minha conta? A resposta, em muitos casos, é sim. Mas depende da forma como ele atua.

O desconto em folha e o prestador de serviços

O desconto direto na fonte é uma das formas mais eficientes de garantir a pensão, posto que reduz atrasos, evita cobranças todo mês e dá previsibilidade para quem cuida da criança. O problema é que a lei pensou, em primeiro lugar, no empregado formal. O Código de Processo Civil fala em desconto em folha para funcionário público, militar, empregado e diretor ou gerente de empresa, mas não menciona quem trabalha por contrato civil.

Só que o mercado mudou e muita gente recebe por contratos de prestação de serviços contínuos, seja como autônomo, seja como empresário individual com CNPJ. Com isso, a renda existe e a fonte pagadora é conhecida, só não existe a folha, sendo injusto que o filho de um empregado tivesse pensão descontada automaticamente, enquanto o filho de um prestador dependesse apenas da boa vontade do pai para receber em dia.

Foi nesse sentido que o Tribunal de Justiça do Paraná decidiu em um caso recente. Numa execução de alimentos, a mãe pediu que a execução alcançasse a empresa do devedor, que era empresário individual, depois de várias tentativas frustradas de encontrar bens em nome dele.

O juiz de primeira instância negou. O tribunal reformou a decisão e permitiu a retenção direta dos valores pagos pelo contratante, com repasse ao representante da criança.

Por que a Justiça pode autorizar a retenção

O raciocínio é simples: o empresário individual é uma pessoa física que exerce atividade econômica. O CNPJ serve para identificar a atividade, mas não cria uma pessoa jurídica separada. Por isso, o patrimônio é um só, e o dinheiro que a empresa contratante paga a ele pertence ao próprio devedor. Quando o juiz manda reter parte desse pagamento, não está atingindo um terceiro nem criando dívida para a empresa, mas está apenas separando, antes da entrega, o valor da pensão que já era devido.

Isso muda quando o pai é sócio de uma sociedade empresária, como uma LTDA. Nesse caso, a empresa tem patrimônio próprio, e já houve decisões recusando a retenção, porque a receita da sociedade não se confunde com o rendimento pessoal do sócio. Por isso, cada situação precisa ser analisada com cuidado.

A medida também tem limites, pois, normalmente, ela vale para as parcelas futuras, e o valor retido deve ser apenas o da pensão, sem tocar no restante do que o pai recebe. Além disso, a ordem judicial precisa ser objetiva, indicando o valor, a data e a conta de destino, para que a empresa não tenha de interpretar nada. O pai também deve ter a chance de se manifestar, e a Justiça costuma verificar se os pagamentos são regulares e se a fonte pagadora está bem identificada.

Há ainda um ponto que não se pode ignorar. Quando a pensão atrasa, quem organiza o orçamento, adia contas e volta ao processo, na maioria dos casos, é a mãe. A retenção direta tira dela o peso de cobrar todo mês e reduz a chance de atrasos usados como estratégia. O juiz não presume que isso aconteça, mas pode considerar esse impacto ao decidir.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que determinou que os alimentos fossem fixados em 30% dos rendimentos líquidos, com desconto direto pela imobiliária para a qual o alimentante prestava serviços.

A decisão também determinou o valor mínimo de 60% do salário mínimo na hipótese de informalidade:

ALIMENTOS – Fixação – Ação proposta por filho em face do pai – Procedência parcial do pedido – Inconformismo do autor – Acolhimento parcial – Aplicação de parte do disposto no art. 252 do RITJSP – Necessidade presumida – Alimentante que presta serviços como corretor autônomo de imóveis – Fixação da pensão em 60% do salário mínimo – Observância do binômio necessidade/possibilidade – Comprovação do vínculo na prestação dos serviços com determinada imobiliária, sem registro na CTPS – Necessidade de fixação da pensão com base no porcentual de ganhos na informalidade – Sentença parcialmente reformada para fixar os alimentos em 30% dos rendimentos líquidos do alimentante, com desconto direto pela imobiliária para a qual presta serviços e/ou para o caso de registro na CTPS, nunca inferior a 60% do salário mínimo – Recurso provido em parte. (TJ-SP – AC: 00010876120188260001 SP 0001087-61.2018.8.26.0001, Relator: J.L. Mônaco da Silva, Data de Julgamento: 02/03/2020, 5ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 02/03/2020)

Conclusão

Sim, é possível pedir à Justiça que empresas que contratam o pai depositem a pensão direto na sua conta, especialmente quando ele atua como autônomo ou empresário individual e recebe de forma regular. O pedido não é automático, e o resultado depende das provas e do tipo de contrato.

Se você sabe quem são os contratantes do pai, reúna notas fiscais, contratos, comprovantes ou qualquer registro dos pagamentos. Com isso em mãos, procure um advogado de sua confiança para avaliar o melhor caminho. A pensão é um direito da criança, e a forma de contratação do pai não deveria ser motivo para ela deixar de chegar.

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Direito Imobiliário

Tenho um imóvel em um condomínio fechado e meu vizinho realizou obras que danificaram minha casa. Posso responsabilizar o condomínio pelos danos que sofri?

Tenho um imóvel em condomínio fechado e meu vizinho fez obras que danificaram minha casa. Posso cobrar do condomínio? Essa dúvida aparece com frequência, e a resposta exige cuidado. Em regra, não. Mas há exceções, e elas importam.

A regra: quem responde é o vizinho

Quem causa o dano deve repará-lo. Se o vizinho fez uma obra e ela trincou paredes, abriu infiltrações ou comprometeu a estrutura da sua casa, a responsabilidade é dele. O condomínio não responde automaticamente por qualquer ilícito de um condômino contra outro. Seria injusto, porque a administração não controla o que cada morador faz dentro do seu lote.

Por isso, o primeiro passo é reunir provas contra o vizinho. Fotografe os danos, peça um laudo técnico de engenheiro ou arquiteto e guarde orçamentos de reparo. Conversas por mensagem sobre a obra também ajudam. Com esse material, é possível tentar um acordo ou, se não der certo, entrar com ação de indenização.

Quando o condomínio também pode ser responsabilizado

Existe um caminho paralelo. Se ficar demonstrado que o condomínio foi negligente, ele pode responder junto. E essa negligência tem um desenho claro: a administração sabia ou devia saber da obra irregular e não fez nada.

Todo condomínio tem convenção e regimento interno. Esses documentos costumam exigir aprovação prévia para obras, definir horários e prever multas. O Código Civil, no artigo 1.348, diz que cabe ao síndico cumprir e fazer cumprir essas regras. Aplicar sanções, quando há infração e previsão normativa, não é favor. É dever.

Os juízes têm decidido nesse sentido, de que condomínio não responde por tudo, mas pode responder pela sua própria omissão. Se ele deixou de fiscalizar, ignorou denúncias ou permitiu uma obra sem autorização, a Justiça pode aceitar que ele participe do processo. Depois, é preciso provar o dano, a culpa e a ligação entre a omissão e o prejuízo, e isso depende de provas.

Na prática, vale deixar um rastro. Avise a administração por escrito, por e-mail ou protocolo, assim que souber da obra, registre pedidos de providência e as respostas, ou a falta delas, pois esse histórico costuma pesar bastante.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos esta decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que entendeu que a omissão do condomínio em exigir providências do condômino gerou dever de indenizar:

DIREITO DE VIZINHANÇA. CONDOMÍNIO. Ação de obrigação de fazer cumulada com indenização por danos materiais e morais. Sentença de parcial procedência. Apelo das partes. Alegação dos autores no sentido de que o réu edificou muro divisório fora dos padrões, causando prejuízos. Irregularidade constatada por laudo pericial. Inobservância das restrições administrativas e dos direitos dos vizinhos (artigo 1 .299 do Código Civil). Obras de ampliação em desacordo com o projeto aprovado. Impacto desfavorável às casas lindeiras. Redução das condições de ventilação e iluminação. Responsabilidade objetiva do corréu. Dever de fazer cessar a interferência prejudicial. Desrespeito generalizado aos direitos de vizinhança no condomínio que é incapaz de autorizar a violação ao direito dos autores. Mantida a determinação de demolição do muro. Responsabilidade solidária do condomínio. Ausência de exigência efetiva do atendimento das normas previstas na legislação municipal e na convenção condominial. Omissão caracterizada. Danos morais não configurados. Inexistência de situação extraordinária. Dissabores que não ultrapassaram a esfera do mero aborrecimento. Precedentes. Danos materiais. Ressarcimento da quantia referente à mão de obra contratada para a realização de reparos no muro. Despesa comprovada mediante recibo. Indenização devida. Sucumbência recíproca. Majoração dos honorários advocatícios arbitrados em desfavor dos réus. Recursos dos réus desprovidos e provido em parte o dos autores. (TJ-SP – Apelação Cível: 10051795620198260704 São Paulo, Relator.: Milton Carvalho, Data de Julgamento: 12/04/2022, 36ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 12/04/2022)

Conclusão

O responsável principal é o vizinho que fez a obra. O condomínio entra na conta apenas quando falhou em fiscalizar e fazer cumprir as próprias regras. Cada caso tem detalhes próprios, como o conteúdo da convenção e o que a administração sabia.

Por isso, antes de decidir contra quem agir, vale procurar um advogado para analisar os documentos e as provas. E, quando possível, tentar a conversa e a mediação antes do processo, porque a convivência no condomínio continua depois.

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Direito Civil

Deixei meu imóvel em locação com uma imobiliária e o inquilino devolveu o apartamento todo danificado. Posso responsabilizar a imobiliária pelos danos?

Entregar um imóvel para uma imobiliária administrar costuma trazer uma expectativa simples: receber os aluguéis, acompanhar o contrato e ter o imóvel devolvido nas condições previstas.

Mas, quando o inquilino deixa de pagar e devolve o apartamento com danos, surge uma dúvida importante: quem deve pagar essa conta?

Em regra, o primeiro responsável pelos danos causados ao imóvel é o próprio inquilino. Porém, isso não significa que a imobiliária esteja sempre livre de responsabilidade. A resposta depende do contrato de administração e da forma como a imobiliária conduziu a locação.

Quando a imobiliária pode ser responsabilizada?

A imobiliária não responde simplesmente porque o inquilino causou danos. Para que exista responsabilidade da administradora, é necessário verificar se houve alguma falha na prestação do serviço.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando a imobiliária deixa de realizar adequadamente a vistoria de entrada ou de saída, não comunica problemas relevantes ao proprietário ou deixa de tomar providências diante do descumprimento do contrato.

A análise também pode envolver a forma como o inquilino foi selecionado. Se a imobiliária assumiu a responsabilidade pela análise cadastral e aceitou documentos que apresentavam sinais claros de irregularidade, a situação merece ser examinada com mais cuidado.

O mesmo vale para a cobrança dos aluguéis. Se o contrato de administração estabelece que a imobiliária deve acompanhar a inadimplência e tomar medidas para proteger o proprietário, a falta de providências pode gerar responsabilidade.

Por isso, antes de cobrar uma indenização da administradora, é importante analisar o contrato firmado com ela, as vistorias realizadas, as comunicações entre as partes e as medidas adotadas durante a locação.

Os tribunais têm reconhecido a responsabilidade de imobiliárias em situações nas quais fica comprovada uma falha na administração do imóvel. Nesses casos, a indenização pode envolver os prejuízos materiais decorrentes da inadimplência e dos danos deixados no imóvel.

O contrato com a imobiliária faz diferença

Um ponto que costuma passar despercebido é que a responsabilidade da imobiliária depende, em grande parte, dos serviços que ela efetivamente assumiu.

Se a empresa foi contratada apenas para encontrar um inquilino, sua responsabilidade será diferente daquela de uma administradora que acompanha toda a relação locatícia, recebe os aluguéis, realiza vistorias e toma providências em caso de inadimplência.

Além disso, é preciso verificar se existe seguro fiança, caução ou outra garantia prevista no contrato de locação. Esses mecanismos podem ajudar na reparação dos prejuízos, mas não eliminam automaticamente a possibilidade de responsabilização da imobiliária quando houver falha na prestação do serviço.

Também é importante separar o desgaste natural do imóvel dos danos causados pelo inquilino. A vistoria de entrada e a vistoria de saída são fundamentais para demonstrar essa diferença.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos que, nos casos de responsabilização da imobiliária, a vistoria inicial e final são elementos importantes e, ainda, que o dever de indenizar só subsiste se ficar verificada a negligência da empresa:

 LOCAÇÃO – IMOBILIÁRIA – RESPONSABILIDADE POR DANOS AO IMÓVEL – ÔNUS PROBATÓRIO – AUSÊNCIA DE ELEMENTOS QUE COMPROVEM A RESPONSABILIDADE DA RÉ – RECURSO DESPROVIDO. Locador que alega danos ao imóvel ao término da locação, imputando responsabilidade à imobiliária pela ausência de vistoria final. Vistoria apresentada. Ausente prova de que os danos, quando da devolução do imóvel, superam aqueles descritos pela ré no documento de fl . 19. Testemunhos indicam que o bem foi devolvido nas mesmas condições em que foi recebido, salvo vícios construtivos. Inexistência de demonstração de descumprimento contratual pela imobiliária. A responsabilidade da imobiliária por danos causados por inquilinos só subsistiria se comprovado que descumpriu as obrigações de administração por ela assumidas, o que não se verificou no caso . Recurso desprovido. Sentença mantida, nos termos do art. 46 da Lei n. 9 .099/95. (TJ-SP – Recurso Inominado Cível: 00011135220238260270 Itapeva, Relator.: Marcia Rezende Barbosa de Oliveira – Colégio Recursal, Data de Julgamento: 18/03/2025, 6ª Turma Recursal Cível, Data de Publicação: 18/03/2025)

Conclusão

Se o inquilino devolveu o imóvel danificado, isso não significa que a imobiliária deverá pagar automaticamente pelos prejuízos. Primeiro, é preciso identificar quem causou o dano e, depois, verificar se a administradora descumpriu alguma obrigação assumida.

Quando há falha na administração, na vistoria, na cobrança ou em outras obrigações previstas no contrato, pode existir fundamento para responsabilizar a imobiliária.

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Direito Civil

Estou comprando um imóvel, mas o vendedor está resolvendo pendências no bem antes da venda. É possível estabelecer cláusula de multa caso o negócio não se concretize por culpa do vendedor?

Comprar um imóvel envolve mais do que definir o preço e assinar a escritura. Muitas vezes, o vendedor ainda precisa resolver pendências relacionadas ao bem, como regularização documental, quitação de débitos, inventário ou problemas no registro.

Nessa situação, o comprador pode ficar exposto por meses, especialmente quando deixa de procurar outros imóveis ou assume custos acreditando que a negociação será concluída.

Por isso, é possível estabelecer no contrato uma multa caso o negócio não seja concretizado por responsabilidade do vendedor. O mais importante é que essa previsão esteja escrita de forma clara e indique em quais situações a penalidade será aplicada.

O contrato pode prever multa se o vendedor desistir?

Sim. O Código Civil permite que as partes estabeleçam uma cláusula penal para situações de descumprimento contratual. Pela regra geral, quando uma obrigação deixa de ser cumprida por culpa de uma das partes, pode haver cobrança da penalidade prevista no contrato.

No caso de uma compra e venda em que o vendedor ainda precisa resolver pendências, essa cláusula merece atenção especial. O contrato pode estabelecer, por exemplo, que o vendedor deverá concluir determinada regularização até uma data específica e que, se não cumprir essa obrigação ou desistir injustificadamente da venda, deverá pagar uma multa ao comprador.

É importante, porém, não deixar a cláusula genérica. O contrato deve indicar quais situações caracterizam a responsabilidade do vendedor, qual será o valor da multa e quando ela poderá ser cobrada.

Além disso, a multa precisa ser razoável. O Código Civil determina que a penalidade não pode exceder o valor da obrigação principal e permite sua redução judicial quando for manifestamente excessiva.

Outro ponto que merece atenção são as arras, conhecidas como sinal. Se houver pagamento de sinal e o negócio não for concluído por culpa de quem recebeu as arras, o Código Civil prevê a possibilidade de devolução mais o equivalente, além de atualização, juros e honorários.

Por isso, não basta colocar no contrato uma multa e, separadamente, um sinal. É preciso verificar como essas previsões vão funcionar em conjunto. O STJ, inclusive, já decidiu que não é possível simplesmente acumular arras com cláusula penal compensatória pela mesma inadimplência.

A regra é diferente quando o imóvel é comprado de uma construtora

Quando a compra é feita diretamente entre particulares, existe maior liberdade para as partes definirem as condições do negócio. Por isso, se o vendedor está resolvendo pendências antes da venda, é especialmente importante inserir uma cláusula específica sobre a multa.

Já nos contratos firmados com construtoras e incorporadoras, a situação é diferente. Existe uma relação de consumo e há regras específicas para determinadas situações envolvendo imóveis na planta.

Além disso, o STJ já estabeleceu que, em contratos de adesão entre comprador e construtora, quando existe uma cláusula penal prevista apenas contra o comprador, ela pode ser considerada para indenizar o consumidor quando o inadimplemento ocorrer por parte da própria construtora.

Portanto, não se deve simplesmente copiar uma cláusula de um contrato de construtora para uma negociação entre particulares. São relações jurídicas diferentes e os riscos também são diferentes.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos o entendimento do STJ acerca dos limites da multa no distrato por inadimplência:

AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA. CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA. DISTRATO . RESCISÃO. PEDIDO DO COMPRADOR. RETENÇÃO. PERCENTUAL . CLÁUSULA. ABUSIVIDADE. DIVERGÊNCIA COMPROVADA. 1 . Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 2015 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. O Superior Tribunal de Justiça entende ser cabível a revisão de distrato de contrato de compra e venda de imóvel, ainda que consensual, em que, a despeito da quitação ampla, geral e irrevogável, exista cláusula de decaimento (abusiva), prevendo a perda total ou substancial das prestações pagas pelo consumidor, em nítida afronta ao Código de Defesa do Consumidor e aos princípios da boa-fé objetiva e do equilíbrio contratual. 3 . Nas hipóteses de rescisão do contrato de promessa de compra e venda por inadimplemento do comprador, a jurisprudência desta Corte admite a flutuação do percentual de retenção pelo vendedor entre 10% (dez por cento) e 25% (vinte e cinco por cento) do total da quantia paga. 4. Agravo interno não provido. (STJ – AgInt nos EDcl no AgInt no AREsp: 1701206 SP 2020/0110897-6, Relator.: Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Data de Julgamento: 01/06/2021, T3 – TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 17/06/2021)

Conclusão

Se o vendedor ainda precisa resolver pendências no imóvel, o comprador deve ter cuidado antes de assumir compromissos financeiros ou deixar de considerar outras oportunidades.

A solução pode estar no próprio contrato. É possível estabelecer prazo para a regularização, definir as condições para a conclusão da compra e prever uma multa caso o vendedor seja responsável pelo fracasso do negócio.

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Direito Tributário

Julgamento do STF sobre vinculação do ITBI e IPTU: o que esperar?

A compra de um imóvel para a empresa, a aquisição de um ponto comercial ou a reorganização do patrimônio familiar envolvem custos que merecem atenção. Entre eles está o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), cobrado pelos municípios nas operações previstas em lei.

Uma discussão no Supremo Tribunal Federal pode afetar a forma como esse imposto é calculado, posto que o tema envolve a possibilidade de vincular a base de cálculo do ITBI ao valor venal utilizado para a cobrança do IPTU.

Embora a questão pareça restrita ao direito tributário, seus efeitos podem alcançar empresários que compram imóveis, investidores e proprietários que pretendem transferir bens. Por isso, é importante entender o que está em discussão antes de tomar decisões patrimoniais.

Qual é a discussão sobre o cálculo do ITBI?

Em 2022, o Superior Tribunal de Justiça, no Tema 1.113, estabeleceu que a base de cálculo do ITBI deve corresponder ao valor do imóvel transmitido em condições normais de mercado. Além disso, definiu que esse valor não está vinculado à base de cálculo do IPTU.

Na prática, o entendimento impede que o município utilize automaticamente o valor venal do IPTU como base obrigatória do ITBI. O valor declarado na transação, contudo, não é necessariamente aceito sem análise. A Administração pode verificar se ele corresponde ao valor de mercado, observando o procedimento adequado.

A discussão que chegou ao STF envolve um recurso apresentado pelo Município de São Paulo, que questiona aspectos processuais relacionados à tese do STJ. A ministra Cármen Lúcia analisou a possibilidade de reconhecimento da repercussão geral, o que poderá levar a discussão constitucional ao Plenário.

Contudo, é importante distinguir a existência de um processo da definição de uma nova regra. A análise sobre a repercussão geral não significa, por si só, que o STF já tenha alterado o entendimento sobre a base de cálculo do ITBI.

O que isso pode representar para empresários?

Para quem compra um imóvel comercial, amplia o patrimônio da empresa ou realiza investimentos imobiliários, a base de cálculo do ITBI interfere diretamente no custo da operação.

Se o município utiliza um valor superior ao preço efetivamente negociado, pode surgir uma diferença relevante no imposto exigido. Por outro lado, a avaliação do imóvel precisa considerar as condições normais de mercado, pois o valor declarado pelas partes não impede a fiscalização.

A discussão também interessa a quem já pagou ITBI. Dependendo das circunstâncias da operação, da legislação aplicável e do entendimento judicial consolidado, pode existir a necessidade de avaliar se houve cobrança indevida. Contudo, não é possível afirmar que toda diferença entre o ITBI e o IPTU gera automaticamente direito à restituição.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos que o Tribunal de Justiça de São Paulo tem decidido pela aplicação do Tema 1.113 do STJ e determinado que o valor venal de IPTU não seja a base de cálculo do ITBI:

DIREITO TRIBUTÁRIO. AGRAVO DE INSTRUMENTO. MANDADO DE SEGURANÇA. ITBI . RECURSO NÃO PROVIDO. I. Caso em Exame. 1 . Agravo de instrumento contra decisão que indeferiu liminar para adoção do valor venal do IPTU como base de cálculo do ITBI, deferindo-a apenas para afastar juros e multa. II. Questão em Discussão. 2 . A questão em discussão consiste em verificar a presença dos requisitos para concessão da liminar destinada à adoção do valor venal do IPTU como base de cálculo do ITBI. III. Razões de Decidir. 3 . A concessão de liminar em mandado de segurança exige fundamento relevante e risco de ineficácia da medida, nos termos do art. 7º, III, da Lei nº 12.016/2009. 4. O Tema 1.113 do STJ afasta a vinculação entre as bases de cálculo do ITBI e do IPTU, não evidenciando, em cognição sumária, fundamento relevante para a adoção imediata do valor venal do IPTU. 5. Não demonstrado o valor atualizado da transação realizada em 2011, inviável concluir, nesta fase processual, que o valor venal do IPTU de 2026 deva ser adotado como base de cálculo. 6. Ausente, por ora, fundamento relevante para a medida postulada, sem prejuízo do exame aprofundado da matéria no julgamento do mérito do mandado de segurança. IV. Dispositivo. 7. Recurso não provido. Tese de julgamento: 1. A liminar em mandado de segurança exige os requisitos do art. . 7º, III, da Lei nº 12.016/2009. 2. Ausente, em cognição sumária, fundamento relevante para adoção do valor venal do IPTU como base de cálculo do ITBI, mantém-se o indeferimento da medida. (TJ-SP – Agravo de Instrumento: 21940456220268260000 São Paulo, Relator.: Adriana Carvalho, Data de Julgamento: 02/09/2026, 14ª Câmara de Direito Público, Data de Publicação: 02/09/2026)

Conclusão

O julgamento do STF merece acompanhamento, pois pode trazer efeitos para municípios, contribuintes e operações imobiliárias. Entretanto, enquanto não houver uma definição aplicável ao caso, o empresário deve analisar a cobrança com base nas regras vigentes e nas características da transação.

Antes de comprar um imóvel ou contestar um imposto já pago, vale verificar a base de cálculo utilizada, os documentos da operação e a possibilidade de questionamento administrativo ou judicial.

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Direito Tributário

Como a Reforma Tributária afeta os profissionais liberais: conheça o CNPJ técnico

A Reforma Tributária do Consumo traz mudanças que merecem atenção de médicos, advogados, contadores, engenheiros, consultores e outros profissionais que trabalham por conta própria. Embora a reforma não obrigue todos a abrir uma empresa, ela altera a forma de identificação fiscal e de emissão de documentos para determinados prestadores de serviços.

Um dos pontos que mais geram dúvidas é o chamado CNPJ Técnico. A inscrição não transforma a pessoa física em empresa, mas pode criar novas obrigações tributárias e operacionais. Por isso, quem possui uma carreira consolidada e atende clientes próprios deve avaliar como as mudanças afetam sua atividade.

CNPJ Técnico: o que muda para o profissional liberal?

O CNPJ Técnico é uma denominação utilizada para identificar a inscrição de determinadas pessoas físicas no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Sua finalidade é permitir a identificação do contribuinte no sistema tributário e a emissão de documentos fiscais, sem alterar sua natureza jurídica.

Assim, o advogado autônomo não se torna uma sociedade de advocacia apenas por obter essa inscrição. O mesmo vale para médicos, engenheiros e outros profissionais que trabalham como pessoa física. O CPF continua sendo utilizado para sua identificação pessoal e a inscrição não exige, por si só, contrato social ou constituição de empresa.

A obrigatoriedade, inicialmente prevista para 2026, foi prorrogada para 1º de janeiro de 2027. Até 31 de dezembro de 2026, permanecem válidos os mecanismos atuais de identificação fiscal nas hipóteses abrangidas pela regulamentação.

Contudo, o profissional deve acompanhar a regulamentação e os procedimentos de emissão fiscal, pois a mudança não se limita ao cadastro.

A reforma pode aumentar os custos e afetar a competitividade?

A reforma cria o IBS e a CBS, tributos que integram a transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo. Para os profissionais liberais enquadrados nas condições legais, isso significa avaliar como a nova tributação incidirá sobre as receitas da atividade.

A legislação prevê redução de 30% nas alíquotas para determinadas profissões intelectuais regulamentadas, como advocacia, contabilidade e engenharia. Serviços de saúde previstos na legislação possuem tratamento diferenciado próprio. A aplicação depende do enquadramento e dos requisitos legais.

Além disso, a emissão de documentos fiscais pode ganhar importância na relação com empresas contratantes. Por isso, o profissional que presta serviços a pessoas jurídicas deve considerar as exigências de seus clientes e o impacto da documentação fiscal no relacionamento comercial.

O que diz a jurisprudência?

Um ponto importante sobre os valores recebidos pelos profissionais liberais é que, enquanto sócios de uma empresa, é necessária a diferenciação dos valroes recebidos como lucro ou pro-labore, pois, neste último caso, há incidência de imposto, conforme se verifica nesta decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região:

TRIBUTÁRIO. EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. IRPF. VALORES RECEBIDOS INDIRETAMENTE DE SOCIEDADE DE ADVOGADOS, PELO ADVOGADO QUE ERA SÓCIO, APÓS SE DESLIGAR FORMALMENTE DA SOCIEDADE. ART. 123 DO CTN. 1. É inviável se qualificar como distribuição de lucros, para fins de aplicação da isenção do art. 10 da Lei 9.249/95, os valores que o embargante recebeu após seu desligamento da sociedade. Isso porque manteve o direito sobre o resultado patrimonial decorrente do trabalho que exerceu na sociedade apenas através de instrumentos particulares e não há disposição legal que autorize reconhecer que os valores recebidos a esse título (após a retirada formal da sociedade) se enquadram juridicamente como “distribuição de lucros”. 2. Os pagamentos foram realizados por pessoa física, com fundamento em instrumentos particulares (“Instrumento particular de cessão de quotas sociais, direitos, obrigações e outras avenças” e “Instrumento de instituição de condomínio, definição de participação no resultado e outras avenças”.) que sequer integram a regulação dos resultados da pessoa jurídica. 3. Nenhuma estipulação contratual entre particulares tem por consequência determinar ou alterar a natureza dos valores recebidos e, por conseguinte, sua forma de tributação – art. 123 do CTN. 4. Não há falar, outrossim, em bis in idem, pois a distribuição original dos lucros (para a sócia que fez o repasse) foi isenta, e a cessão dos valores se caracteriza como um novo fato imponível, a ensejar a incidência do IRPF. 5. É inaplicável o art. 112 do CTN ao caso em apreço, por versar sobre a determinação do imposto devido e a aplicabilidade de norma isentiva, e não sobre infrações tributárias. (TRF-4 – AC: 50049011820174047101 RS, Relator: ANDREI PITTEN VELLOSO, Data de Julgamento: 14/05/2019, 2ª Turma, Data de Publicação: 16/05/2019)

Conclusão

A Reforma Tributária não exige que todo profissional liberal abra uma empresa. Entretanto, o CNPJ Técnico, a emissão de documentos fiscais e a incidência do IBS e da CBS podem alterar a forma como determinados profissionais organizam suas atividades.

Por isso, o período de adaptação até 2027 deve ser utilizado para avaliar a situação de cada profissional. A escolha entre continuar como pessoa física ou constituir uma pessoa jurídica depende da receita, das despesas, do perfil dos clientes e da carga tributária aplicável.

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Direito Tributário

Tenho valores a receber do fisco, por ter recebido a mais, porém, tenho impostos em aberto. Ainda receberei os valores?

Por um erro no cálculo do imposto ou pelo recolhimento antecipado de valores, é possível que o contribuinte tenha direito à restituição de impostos pagos a mais. No entanto, esse recebimento pode demorar, principalmente quando existem outras obrigações tributárias pendentes.


Se, em outro ano, você tiver imposto a pagar e não tiver quitado o débito, a Receita Federal poderá utilizar o valor da restituição para compensar essa dívida. O mesmo princípio se aplica às empresas, que podem ter créditos tributários utilizados na compensação de outros tributos, conforme as regras aplicáveis.


Mas como funciona esse procedimento? E o que acontece quando o valor a receber é elevado?


O que é a compensação de ofício?


A compensação de ofício ocorre quando a Receita Federal identifica que o contribuinte tem um valor a receber, mas possui débitos tributários pendentes. Nesse caso, a Administração Pública pode utilizar o crédito para quitar, total ou parcialmente, a dívida existente.


Na prática, imagine que você tenha direito a R$ 15 mil de restituição do Imposto de Renda, mas possua R$ 5 mil em impostos vencidos. O Fisco poderá destinar esse valor à quitação do débito. Se a compensação for realizada, o saldo de R$ 10 mil poderá ser restituído, conforme as condições legais.


O procedimento está relacionado às regras do Código Tributário Nacional e da Lei nº 9.430/1996. A compensação, por sua vez, não depende de um pedido prévio do contribuinte, pois é realizada pela Administração, observados os requisitos legais.


Neste sentido, a Receita Federal disponibiliza um serviço para consultar a notificação de compensação de ofício. Por meio dele, o contribuinte pode consultar as dívidas identificadas, imprimir uma segunda via da notificação, autorizar a compensação imediata ou discordar da compensação.


A discordância exige atenção, pois, se você não concordar com o procedimento, deverá verificar a situação dos débitos e buscar sua regularização. Enquanto isso, a restituição poderá permanecer suspensa. Por isso, é importante analisar a origem da dívida e os valores envolvidos antes de tomar uma decisão.


STF permite compensação acima de R$ 10 milhões
Em setembro de 2026, o Supremo Tribunal Federal validou, por unanimidade, a possibilidade de estabelecer limites mensais para a compensação de créditos tributários federais reconhecidos por decisões judiciais definitivas, quando o valor ultrapassa R$ 10 milhões. A decisão foi tomada no julgamento das ADIs 7.587 e 7.609.


A regra decorre da Lei nº 14.873/2024, que prevê um limite mensal graduado conforme o valor total do crédito. O limite não pode ser inferior a 1/60 do valor devido, e a compensação deve seguir os parâmetros legais.


Isso significa que o contribuinte que possui um crédito judicial elevado não tem, necessariamente, o direito de utilizá-lo integralmente de uma só vez. O STF reconheceu que a lei pode estabelecer condições sobre o momento e a quantidade de créditos utilizados na compensação.


É importante distinguir essa decisão da compensação de ofício do Imposto de Renda da pessoa física. Embora ambas envolvam créditos e débitos tributários, as regras e os procedimentos aplicáveis podem ser diferentes.


O que diz a jurisprudência?


Um precedente importante do STF previu que é inconstitucional a cobrança de multa isolada aplicada pela Receita Federal em razão da não homologação da compensação tributária ou pelo indeferimento do ressarcimento. Vejamos:


RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. TRIBUTOS ADMINISTRADOS PELA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA . NEGATIVA DE HOMOLOGAÇÃO. MULTA ISOLADA. AUTOMATICIDADE. DIREITO DE PETIÇÃO . DEVIDO PROCESSO LEGAL. BOA-FÉ. ART. 74, §17, DA LEI 9 .430/96. 1. Fixação de tese jurídica para o Tema 736 da sistemática da repercussão geral: “É inconstitucional a multa isolada prevista em lei para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária”. 2 . O pedido de compensação tributária não se compatibiliza com a função teleológica repressora das multas tributárias, porquanto a automaticidade da sanção, sem quaisquer considerações de índole subjetiva acerca do animus do agente, representaria imputar ilicitude ao próprio exercício de um direito subjetivo público com guarida constitucional. 3. A matéria constitucional controvertida consiste em saber se é constitucional o art. 74, §§ 15 e 17, da Lei 9 .430/96, em que se prevê multa ao contribuinte que tenha indeferido seu pedido administrativo de ressarcimento ou de homologação de compensação tributária declarada. 4. Verifica-se que o § 15do artigoo precitado foi derrogado pela Lei 13.137/15; o que não impede seu conhecimento e análise em sede de Recurso Extraordinário considerando a dimensão dos interesses subjetivos discutidos em sede de controle difuso . 5. Por outro lado, o § 17 do artigo 74 da lei impugnada também sofreu alteração legislativa, desde o reconhecimento da repercussão geral da questão pelo Plenário do STF. Nada obstante, verifica-se que o cerne da controvérsia persiste, uma vez que somente se alterou a base sobre a qual se calcula o valor da multa isolada, isto é, do valor do crédito objeto de declaração para o montante do débito. Nesse sentido, permanece a potencialidade de ofensa à Constituição da Republica no tocante ao direito de petição e ao princípio do devido processo legal . 6. Compreende-se uma falta de correlação entre a multa tributária e o pedido administrativo de compensação tributária, ainda que não homologado pela Administração Tributária, uma vez que este se traduz em legítimo exercício do direito de petição do contribuinte. Precedentes e Doutrina. 7 . O art. 74, § 17, da Lei 9.430/96, representa uma ofensa ao devido processo legal nas duas dimensões do princípio. No campo processual, não se observa no processo administrativo fiscal em exame uma garantia às partes em relação ao exercício de suas faculdades e poderes processuais . Na seara substancial, o dispositivo precitado não se mostra razoável na medida em que a legitimidade tributária é inobservada, visto a insatisfação simultânea do binômio eficiência e justiça fiscal por parte da estatalidade. 8. A aferição da correção material da conduta do contribuinte que busca à compensação tributária na via administrativa deve ser, necessariamente, mediada por um juízo concreto e fundamentado relativo à inobservância do princípio da boa-fé em sua dimensão objetiva. Somente a partir dessa avaliação motivada, é possível confirmar eventual abusividade no exercício do direito de petição, traduzível em ilicitude apta a gerar sanção tributária . 9. Recurso extraordinário conhecido e negado provimento na medida em que inconstitucionais, tanto o já revogado § 15, quanto o atual § 17 do art. 74 da Lei 9.430/1996, mantendo, assim, a decisão proferida pelo Tribunal a quo . (STF – RE: 00000000000000796939 RS, Relator.: EDSON FACHIN, Data de Julgamento: 18/03/2023, Tribunal Pleno, Data de Publicação: PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL – MÉRITO DJe-s/n DIVULG 22-05-2023 PUBLIC 23-05-2023)


Conclusão


Ter valores a receber da Receita Federal não significa que o dinheiro será depositado integralmente na sua conta. Se houver impostos em aberto, o Fisco poderá realizar a compensação de ofício, conforme a legislação aplicável.


Por isso, vale conferir a notificação, identificar quais débitos foram apontados e verificar se os valores estão corretos. Em situações que envolvam quantias elevadas, divergências sobre a dívida ou créditos judiciais, uma análise jurídica pode ajudar a definir os próximos passos e evitar prejuízos.

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Direito de Família

No divórcio posso pedir que meu ex-marido exclua minhas fotos de sua rede social?

O fim de um casamento costuma envolver decisões que vão muito além da divisão de bens e da guarda dos filhos. Uma delas pode parecer simples, mas nem sempre é: o que fazer com as fotografias do antigo relacionamento que continuam publicadas nas redes sociais?

É comum que um casal tenha registrado viagens, aniversários, festas, momentos em família e outras situações durante os anos de convivência. Depois do divórcio, porém, uma das partes pode não querer mais aparecer nas redes sociais do ex-cônjuge.

Nesse caso, é possível exigir a exclusão das fotografias?

A resposta é: depende.

O direito à imagem e à privacidade é protegido pela Constituição Federal e pelo Código Civil. Portanto, o fato de uma fotografia ter sido tirada durante o casamento não significa, por si só, que ela poderá permanecer publicada indefinidamente.

Por outro lado, o divórcio também não transforma automaticamente toda fotografia antiga em uma publicação ilícita.

O divórcio não obriga, sozinho, o ex-cônjuge a apagar todas as fotos

Uma fotografia em que o casal aparece sozinho, por exemplo, pode ser tratada de forma diferente de uma imagem que registra uma festa de família com filhos, parentes ou outras pessoas. Da mesma forma, uma fotografia comum pode receber tratamento diferente se estiver acompanhada de uma legenda ofensiva, exposição da vida íntima ou qualquer conteúdo que prejudique a imagem do ex-cônjuge.

Outro ponto importante é saber se houve autorização para a publicação e em quais circunstâncias ela foi concedida.

A autorização dada durante o relacionamento não deve ser interpretada necessariamente como permanente. Depois da separação, a pessoa pode manifestar que não deseja mais ter sua imagem vinculada àquela publicação. Porém, isso não significa que todo pedido de exclusão será automaticamente acolhido.

A jurisprudência ainda apresenta decisões diferentes sobre o assunto. Em alguns casos, há o entendimento de que, retirada a autorização para manter determinadas imagens, não há justificativa para que elas continuem disponíveis nas redes sociais. Em outros, a manutenção de fotografias antigas é considerada legítima quando as imagens apenas registram momentos familiares, especialmente quando envolvem a história e os filhos que o casal teve em comum.

Quando a exclusão pode ser determinada?

A situação muda quando a publicação ultrapassa o simples registro de uma lembrança familiar.

Fotografias que exponham a intimidade, causem constrangimento, sejam utilizadas para ofender ou estejam associadas a mensagens que prejudiquem a reputação da pessoa podem justificar um pedido de remoção e, dependendo do caso, até uma indenização.

Também pode ser relevante a finalidade da publicação. Uma fotografia mantida em um álbum antigo, sem qualquer conteúdo ofensivo, não necessariamente terá o mesmo tratamento de uma imagem utilizada para provocar o ex-cônjuge, divulgar uma situação íntima ou obter algum benefício comercial.

A jurisprudência vem analisando essas situações, de modo que há entendimentos no sentido de que, quando a pessoa retira sua autorização para a permanência das imagens e não existe interesse público ou informativo que justifique a publicação, a exclusão pode ser determinada.

Por outro lado, há decisões reconhecendo que fotografias antigas de uma família podem representar apenas momentos da convivência que existiu, principalmente quando não há conteúdo ofensivo ou exposição indevida. Nesses casos, o simples fato de um dos ex-cônjuges ter iniciado um novo relacionamento não é suficiente, por si só, para determinar a retirada das imagens.

Se houver interesse em pedir a exclusão, portanto, é importante guardar as publicações, registrar os links e analisar o conteúdo das imagens antes de tomar qualquer medida. Dependendo da situação, o pedido pode ser feito diretamente ao ex-cônjuge ou à própria plataforma. Se não houver solução, pode ser necessário buscar o Judiciário.

O que diz a jurisprudência?

Um dos pontos importantes para remoção das imagens, segundo entendimento do STJ, é que a foto deve ter o link certo para que assim seja removida:

AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL DO PROVEDOR DE INTERNET. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. REMOÇÃO DE CONTEÚDO OFENSIVO EM REDE SOCIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. NECESSIDADE DE IDENTIFICAÇÃO CLARA E PRECISA DO CONTEÚDO DIGITAL A SER REMOVIDO. FORNECIMENTO DE LOCALIZADOR URL DA PÁGINA OU RECURSO DA INTERNET. COMANDO JUDICIAL ESPECÍFICO. NECESSIDADE. CONSONÂNCIA DO ACÓRDÃO RECORRIDO COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. SÚMULA 83/STJ. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Não se verifica a alegada violação ao art. 1.022 do CPC/2015, na medida em que a eg. Corte de origem dirimiu, fundamentadamente, a questão que lhe foi submetida, não sendo possível confundir julgamento desfavorável, como no caso, com negativa de prestação jurisdicional ou ausência de fundamentação. 2. O Marco Civil da Internet elenca, entre os requisitos de validade da ordem judicial para a retirada de conteúdo infringente, a “identificação clara e específica do conteúdo”, sob pena de nulidade, sendo necessária, portanto, a indicação do localizador URL. 3. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no sentido da necessidade de indicação clara e específica do localizador URL do conteúdo infringente para a validade de comando judicial que ordene sua remoção da internet e, ainda, o fornecimento do URL é obrigação do requerente, o que ocorreu na espécie. 4. O entendimento adotado no acórdão recorrido coincide com a jurisprudência assente desta Corte Superior, circunstância que atrai a incidência da Súmula 83/STJ. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (STJ – AgInt no AREsp: 2314086 RS 2023/0074526-6, Relator: Ministro RAUL ARAÚJO, Data de Julgamento: 18/09/2023, T4 – QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 22/09/2023)

Conclusão

O divórcio não dá ao ex-cônjuge um direito automático de exigir que todas as fotografias do relacionamento sejam apagadas das redes sociais.

Ao mesmo tempo, ninguém é obrigado a aceitar indefinidamente uma exposição que viole sua imagem, privacidade ou honra.

Por isso, antes de concluir que uma foto deve ou não ser excluída, é necessário avaliar o conteúdo da imagem, a forma como ela foi publicada, a existência de autorização e o uso que está sendo feito dela.

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Direito das Sucessões

Herdei um imóvel junto com meus irmãos, porém, um parente mora na casa e se nega a sair. Meus irmãos não se opõem. Posso entrar sozinho na justiça para pedir a retirada dele?

Quando uma pessoa falece e deixa um imóvel para vários herdeiros, é comum que apenas um parente continue morando na casa. O problema surge quando esse ocupante passa a impedir que os demais herdeiros tenham acesso ao imóvel, façam obras, realizem a manutenção ou até mesmo coloquem a propriedade à venda.


Nessa situação, é importante lembrar que, até a partilha, a herança pertence aos herdeiros em conjunto. Se o imóvel é uma única casa, por exemplo, não é possível dizer que cada herdeiro possui uma parte física determinada do bem. A propriedade permanece indivisa.


É possível pedir a reintegração de posse?


O fato de o imóvel pertencer a vários herdeiros não significa que apenas aquele que mora na casa possa exercer a posse. Todos os herdeiros têm direito de utilizar o patrimônio comum, respeitados os direitos dos demais.
Por isso, quando um parente ocupa sozinho o imóvel e impede que outro herdeiro tenha acesso ou exerça sua posse, pode ser necessário recorrer à Justiça para garantir esse direito. Dependendo de quem ocupa o imóvel, de como a ocupação começou e das circunstâncias do caso, pode ser cabível uma ação de reintegração de posse.

A medida pode ser necessária, por exemplo, quando o herdeiro precisa ocupar o imóvel, realizar obras, fazer reparos ou permitir que a casa seja preparada para venda. Afinal, um dos herdeiros não pode utilizar o bem exclusivamente e impedir os demais de exercerem seus direitos sobre a propriedade.


Entretanto, é necessário analisar quem é o ocupante. Se for outro herdeiro, a situação exige uma análise diferente daquela em que um terceiro, que não participa da sucessão, permanece no imóvel sem autorização dos proprietários.


O parente que mora no imóvel deve pagar aluguel?


A utilização exclusiva do imóvel por apenas uma pessoa também pode gerar o dever de indenizar os demais herdeiros pelo uso do bem.
Isso acontece porque, embora um dos herdeiros possa utilizar o imóvel, ele não pode excluir os outros do exercício de seus direitos. Quando existe oposição dos demais à ocupação exclusiva, pode ser discutido o pagamento de uma indenização correspondente ao uso do imóvel, normalmente calculada com base no valor de mercado do aluguel e na participação de cada herdeiro.


Por exemplo, se três irmãos herdaram uma casa em partes iguais e apenas um deles permanece no imóvel, os outros dois podem discutir uma compensação pelo período em que foram impedidos de utilizar o bem.
O pagamento de aluguel ou indenização não significa, necessariamente, que o ocupante será imediatamente retirado da casa. Dependendo do caso, pode ser uma alternativa enquanto os herdeiros não chegam a um acordo sobre a venda, a partilha ou a aquisição das quotas pelos demais.


O que diz a jurisprudência?


Vejamos a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que determinou que, enquanto perdurar o inventário, todos os herdeiros tem direito à posse da herança indivisa:


AGRAVO DE INSTRUMENTO. CÂMARA DE DIREITO PRIVADO. DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. HERANÇA INDIVISA. LEGITIMIDADE ATIVA. NECESSIDADE DE LITISCONSÓRCIO ATIVO ENTRE TODOS OS HERDEIROS. RECURSO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo de instrumento interposto por Aline Joaquim de Souza e outro contra decisão do juízo da 1ª Vara de Valença que, nos autos da ação de reintegração de posse ajuizada por Espólio de Sebastião Rodrigues de Souza e Orminda Rosa de Souza, representado pelo inventariante Rosencler Rosa de Souza, rejeitou a preliminar de ilegitimidade ativa e indeferiu o pedido de habilitação do Espólio de Ronil Rosa de Souza. Os agravantes, filhos de Ronil, alegam erro de julgamento e requerem a inclusão de todos os herdeiros no polo ativo da demanda possessória. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se, em caso de herança indivisa, todos os herdeiros devem integrar o polo ativo da ação possessória envolvendo bem do espólio; (ii) estabelecer se é cabível a inclusão dos espólios dos filhos falecidos dos autores da herança (Sebastião e Orminda) no polo ativo da demanda. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O artigo 1.784 do Código Civil estabelece que a herança se transmite automaticamente aos herdeiros com a abertura da sucessão, conferindo-lhes, enquanto não houver partilha, cotitularidade sobre a posse e a propriedade dos bens. 4. Conforme o artigo 1.199 do Código Civil, enquanto perdurar o condomínio hereditário, todos os herdeiros possuem a posse conjunta dos bens e podem exercer atos possessórios, desde que não excluam os direitos dos demais compossuidores. 5. O artigo 113, I, do Código de Processo Civil prevê a formação de litisconsórcio necessário ativo quando há comunhão de direitos relativamente à lide, como no caso de herdeiros que compartilham a posse de imóvel objeto de demanda possessória. 6. A jurisprudência reconhece que, sem a devida partilha, os bens permanecem em condomínio entre os herdeiros, o que impõe a participação de todos no polo ativo da ação que discuta a posse ou propriedade do bem. 7. A ausência de qualquer dos herdeiros, inclusive os representados por seus espólios, compromete a regularidade da formação da relação processual, exigindo-se a retificação do polo ativo para incluir todos os cotitulares da herança. IV. DISPOSITIVO E TESE 8. Recurso provido. Tese de julgamento: 1. Todos os herdeiros devem integrar o polo ativo da ação possessória relativa a bem da herança indivisa, enquanto não realizada a partilha. 2. É imprescindível a formação de litisconsórcio ativo necessário entre os espólios dos herdeiros falecidos e o inventariante para a validade da demanda. 3 . A ausência de herdeiro cotitular da posse na ação de reintegração de posse compromete a legitimidade ativa e impõe a retificação da demanda. Dispositivos relevantes citados: CC, arts. 1.784 e 1 .199; CPC, art. 113, I. (TJ-RJ – AGRAVO DE INSTRUMENTO: 00251942620258190000, Relator.: Des(a). MARCIA FERREIRA ALVARENGA, Data de Julgamento: 05/08/2025, OITAVA CAMARA DE DIREITO PRIVADO (ANTIGA 17ª CÂMARA CÍVEL), Data de Publicação: 08/08/2025)


Conclusão


Quando um imóvel é herdado por várias pessoas e permanece indiviso, todos os herdeiros têm direitos sobre o bem. O fato de apenas um parente morar na casa não permite, por si só, que ele impeça os demais de exercerem a posse.

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Direito das Sucessões

Meu marido faleceu em decorrência de um acidente causado por falha da rodovia. Eu e minha sogra podemos pedir indenização por danos morais?

A morte de uma pessoa em um acidente de trânsito causa consequências que vão muito além da perda familiar. Quando o acidente ocorre por uma falha na rodovia, pode existir ainda a possibilidade de buscar uma indenização pelos danos causados aos familiares.

É o que pode acontecer, por exemplo, quando o acidente fatal é provocado por um buraco sem sinalização adequada, pela ausência de conservação da pista ou pela presença de animais na rodovia.

Nessas situações, porém, é necessário verificar quem tinha o dever de conservar e fiscalizar aquele trecho e se houve uma falha que contribuiu para o acidente.

Quem pode ser responsabilizado pelo acidente?

A responsabilidade dependerá das circunstâncias do caso e da identificação do responsável pela manutenção e segurança da rodovia.

Quando se trata de uma rodovia administrada por uma concessionária mediante cobrança de pedágio, a empresa pode responder pelos danos decorrentes de falhas na prestação do serviço. Já quando a rodovia é administrada diretamente pelo poder público, a responsabilidade poderá ser atribuída ao Município, Estado ou União, conforme a competência sobre aquela via.

Entre as situações que podem gerar responsabilidade estão: a existência de buracos sem manutenção ou sinalização, a falta de sinalização adequada em trechos perigosos e a presença de animais na pista quando havia dever de fiscalização e prevenção.

No entanto, não basta que o acidente tenha acontecido em uma rodovia com problemas. É necessário demonstrar a relação entre a falha e o acidente que causou a morte.

Comprovada a responsabilidade, os familiares próximos da vítima podem buscar reparação pelos danos sofridos. A indenização por dano moral decorrente da morte de um familiar é conhecida como dano moral reflexo ou por ricochete.

A análise, porém, não termina com a comprovação do parentesco.

Esposa e sogra podem receber o mesmo valor?

A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça vem estabelecendo que o valor da indenização deve considerar as características da relação existente entre a vítima e cada familiar.

Isso significa que o grau de parentesco é relevante, mas não é o único fator analisado.

Em uma situação como essa, a esposa e a mãe da vítima podem ter legitimidade para pedir indenização. No entanto, o valor destinado a cada uma não precisa necessariamente ser igual.

O STJ tem considerado aspectos como a proximidade da relação familiar, a convivência efetiva e a existência de dependência emocional ou econômica. A intenção é evitar que o valor seja definido apenas pela existência formal do parentesco, sem considerar a realidade daquela família.

Além dos danos morais, dependendo da situação, também pode existir discussão sobre danos materiais. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando o falecido contribuía financeiramente para o sustento da família. Nesse caso, será necessário avaliar a dependência econômica e os prejuízos efetivamente provocados pela morte.

O que diz a jurisprudência?

Vejamos nesta decisão do STJ que, com o falecimento do genitor/companheiro, a indenização foi maior para a filha do falecido do que para a companheira:

DIREITO CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. ACIDENTE EM RODOVIA FEDERAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA CONCESSIONÁRIA. MAJORAÇÃO DE VALORES. RECURSO PROVIDO. 1. A questão em discussão consiste em saber se os valores fixados a título de indenização por danos morais são irrisórios e desproporcionais à extensão dos danos, considerando a morte do genitor/companheiro dos recorrentes e as graves lesões pessoais, incluindo a paraplegia de uma das recorrentes. 2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça admite a revisão do valor fixado a título de danos morais em hipóteses excepcionais, quando verificada a exorbitância ou a irrisoriedade da quantia arbitrada, em flagrante ofensa aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. 3 . Os valores fixados pelo Tribunal de origem para compensar cumulativamente o dano-morte e os danos pessoais, incluindo a paraplegia, demonstram-se irrisórios e desarrazoados, sendo dissonantes dos parâmetros utilizados pelo Superior Tribunal de Justiça em casos análogos. 4. No caso, a majoração do quantum indenizatório é necessária para atender aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, observando-se o caráter pedagógico da medida, sem ensejar enriquecimento indevido, majorando-se os danos morais para R$375.000,00 (trezentos e setenta e cinco mil reais) para a filha e R$250 .000,00 (duzentos e cinquenta mil reais) para a esposa e igual quantia para o filho, com juros da data do evento morte e correção monetária a partir deste julgado. 5. Recurso provido para majorar os valores fixados a título de danos morais. (STJ – AREsp: 00000000000001909645 MS 2021/0170746-3, Relator.: Ministro RAUL ARAÚJO, Data de Julgamento: 09/02/2026, T4 – QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJEN 13/02/2026)

Conclusão

Se uma pessoa faleceu em um acidente provocado por falha na rodovia, os familiares podem ter direito a buscar indenização, desde que seja demonstrada a responsabilidade pelo acidente e a relação entre a falha existente na via e a morte.

A identificação do responsável é o primeiro passo. Depois, é necessário avaliar quais familiares podem pedir a reparação e quais danos foram efetivamente sofridos.